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Biscoito da Sorte
Aceita um biscoito da sorte? É só clicar e descobrir a surpresa que tem dentro dele pra você!
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Os sapientes telespectadores do doutor João Kleber, quando desfrutam a erudição de seus espontâneos e nada combinados “testes de fidelidade”, estão cientes que o “Para! Para! Para!” exclamado com estridência pelo eminente comunicador (sem intenção nenhuma de embromar para segurar a audiência, toda vez que a mulher do corno ameaça tirar a roupa para o Ricardão) não tem mais acento. Acentos são economizados pelas prodigiosas mentes dos telespectadores do João Kleber, com alto poder imaginativo, que visualizam a grafia correta de todas as palavras ditas oralmente pela sumidade que apresenta programas de TV para intelectuais.

Se você for um cidadão ocupado e hiperativo, sem tempo para encaixar o hábito da leitura na sua lista de afazeres, e estiver aproveitando um sinal vermelho de trânsito para ler esta crônica, caso perca a concentração e bata o seu carrinho, vai amassar o seu para-choque (sem acento). O “para” que compõe essa palavra composta é oriundo do verbo parar, pois o utilitário que possui a função de proteger a sua caranga e evitar maiores danos provocados por um sinistro para (do verbo parar) o choque de uma batida. Antes da última reforma ortográfica, você acentuava o dito cujo e amassava o seu pára-choque (com acento agudo no primeiro A).Clicando aqui, você lê o texto completo
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Quando se é criança numa suposta casa normal, as coisas são apresentadas para nós de uma forma, no mínimo, relativamente simpática. Embora a família não seja o supremo modelo a ser seguido em termos de estruturação, tudo parece ser bonito.

Mesmo que o pai, hipoteticamente, não seja muito sóbrio e que os cuidados para que o filho não assista às cenas desarmônicas experimentadas pelos cônjuges não sejam prudentemente resguardados, o brilho dos olhos e a candura do coração de um anjinho conseguem ter mais força do que os deselegantes aviltamentos a que a matriarca aceite submeter-se.

E se, por ventura, as agressões não forem apenas verbais e as paredes do dormitório infantil combinadas com o pressionamento do macaquinho de pelúcia nos ouvidos não proporcionarem as circunstâncias sinergéticas adequadas para poupar os tímpanos do novato deste mundo de receberem informações sonoras indicadoras de que a estória da princesa – que vira no programa vespertino da emissora da rede pública de televisão – não é rigorosamente idêntica aos episódios de investidas físicas insuficientemente afáveis do genitor em relação à genitora, ainda havia o colinho da vovó aos domingos com direito a chá e torradinha.
Trecho do conto "O mundo quase perfeito"
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O sol, o céu e a lua

Janelas, carros e rua

E nada mais diferente

Rotina é tão ardente.Clicando aqui, você ouve a música
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E não era por isso que eu o odiava. Não fora ele quem escolhera qual curso superior eu faria. O Problema do mestre – mestre não, graduado, porque ele era da época em que não se exigia mestrado para os professores universitários e, quando começaram a exigir, faltavam poucos anos para ele se aposentar e resolveram deixá-lo por lá mesmo – era que ele passou a maior parte de sua vida num mundo ainda bipolarizado por Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Ele não sabia pensar de outra forma e, mesmo faltando menos de um ano para o século XXI, seu hobby preferido era cutucar as viúvas de Karl Marx (e eu era uma delas). Entrava eu no jogo do velhinho e dava os meus chiliques em sala de aula. E achava lindo.

Contava o catedrático da velha guarda que, na época do regime militar, um aluno, descontente com sua nota na prova bimestral, se vingou dele o denunciando como comunista para o DOI-CODI (aliás, esse nome DOI-CODI soa como algo tão intelectual, mas se é coisa de polícia, não pode ser intelectual).Clicando aqui, você assiste ao vídeo com animação digital
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Nos idos de 1999, quando eu ainda cursava a faculdade de economia, muito me preocupava o fato dos Estados Unidos não terem assinado o tal do Protocolo de Kyoto, alegando que, caso reduzissem a emissão de CO2 na atmosfera, poderiam prejudicar a atividade econômica do país.

Por isto, participei de vários congressos e baterias de palestras acerca do assunto e cheguei a cogitar redigir a minha monografia sobre este tema.

Depois de uma semana inteira confinado num hotel no qual ocorrera um evento com debates a respeito desta matéria, senti-me saturado com tantos dados técnicos e comecei a pensar o conteúdo do modo que mais me aprazia: poeticamente.

Lá do fundo da sala de conferências, vi um jovem universitário escocês dirigir-se à tribuna e dizer que o aquecimento global não existia, era meramente uma falácia e estava tudo em ordem com o clima no mundo. Sua oratória era contagiada de otimismo e suas previsões repletas de coisas boas que, consoante seu entendimento, suceder-se-iam nas décadas vindouras.Clicando aqui, você assiste ao vídeo com animação digital
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Naquela quinta-feira, cheguei quarenta minutos mais cedo ao trabalho e passei na padaria pra tomar café da manhã. Pedi uma média com leite e um croissant, liguei o meu notebook e comecei a escrever.

Estava concentrado, mas não pude deixar de prestar atenção no diálogo da mesa vizinha. Nela, dois advogados aguardavam o início das atividades forenses. Conversavam sobre uma ação de rito ordinário em trâmite na vigésima oitava vara cível. Era um processo de indenização por danos morais.

Os rábulas, enquanto cuspiam jargões advocatícios pros quatro cantos daquela panificadora secular, fundada em 1872, faziam questão de mirar de soslaio os três candangos ignorantes que passavam a constituir público estupefato, e enfatizavam palavras estranhas ao vocábulo dos matutos.

O chicaneirinho mais moço – e mais empolgado também – repetiu as expressões “embargos infringentes” e “mandado de injunção” uma meia dezena de vezes fora do contexto, haja vista que se tratava de uma açãozinha corriqueira de primeira instância. Mas, pros que querem saborear a convenção social que denomina doutores os meros graduados, sem precisar fazer o sacrifício de cursar medicina, aquele posicionamento arrogante é um deleite.Clicando aqui, você assiste ao vídeo com animação digital