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Biscoito da Sorte
Aceita um biscoito da sorte? É só clicar e descobrir a surpresa que tem dentro dele pra você!
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Para mim, o costume servia, unicamente, para marcar a cadência que me ajudava a localizar-me na harmonia do mundo, fazendo contrapeso com o meu isolamento quase autista, mas para a minha mãe a data era de suma importância.

Tanto brilhavam os olhos dela que eu não tinha coragem de subtrair, de antemão, o pacote comprido e achatado – que eu sabia ser o meu skate – do saco de presentes. Notava-se aí a inversão de papéis: cabia ao filho fingir para agradar a mãe.

Meu ânimo era bem fraco. Acho que em virtude do que ocorrera um ano antes: os meus primos furaram o meu Pogobol, depois de brincarem com ele no asfalto, mesmo eu dizendo que não podia. O que adiantou tê-lo degustado com os olhos durante os três meses antecessores, nos comercias do Bozo?

Apesar da pouca idade, o saudosismo já tomava conta do meu coração. No ano de 1989, sentia falta do longínquo 1983, quando ganhei um gravador. Aquele, sim, havia sido dado pelo Papai Noel de verdade. E eu passei o dia vinte e cinco inteirinho gravando programas numa fita cassete. Depoimentos e entrevistas nas quais revelei o que eu seria quando crescesse.Clicando aqui, você lê o texto completo
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Saí, enfim, daquela sala desgraçada e fui logo para o que interessava: a doação. Pensei que a minha expiação de pecados havia findado, mas logo que deitei na poltrona, senti aquela picada maldita na veia. Quase xinguei quem não tinha nada a ver com isso: a mãe da enfermeira. Soltei um “filha da…”, mas fiz uso das reticências e mantive o nível. Olhei para o crachá da vampiresca mulher e pude ler o seu nome: Geni. Quem vê o nome Geni e não lembra do Chico Buarque que atire a primeira pedra. Ou melhor, que atire a primeira bosta. Pois foi isso que aconteceu. Eu fiquei com vontade de jogar bosta na enfermeira que enfiou aquela merda de agulha no meu braço.

Fui embora daquele banco de sangue correndo mais do que barata de chinelo. Mas voltarei daqui três meses. Apesar de tudo, sei que a única forma de sentir uma satisfação plena é fazendo o bem. Só que não saía da minha cabeça a seguinte situação hipotética: imagina só, uma mulher que nasceu lá pelos anos de 1950, 1955, que foi agraciada com o nome de Geni e teve uma filha chamada Silvia. Nossa, meus queridos! Que família duplamente agraciada! A mãe teve a chance de ser bastante achincalhada em 1978. Aí veio os anos oitenta e foi a vez da filha. Que legal!Clicando aqui, você assiste ao vídeo com animação digital
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Quase chegando ao banco, passo pela porta da livraria.

– Moça, tem livro do Donald Trump? – indago à balconista loira.

Ela digita no sistema de busca apenas a palavra que conhece a grafia, que, obviamente, é a primeira. Nos resultados, somente links pra Pato Donald.

– O livro que você procura é da Disney, moço? – interrogou-me, quase zurrando.

Oh, dúvida, cruel! Tenho de responder em conformidade com o meu desejo ou empenhar-me pra ser simpático? Saco preso na gaveta dói menos...
Esquece o Trump. Nunca aprenderei a ficar milionário lendo as teorias dele. Só vou ajudá-lo a enriquecer mais.Clicando aqui, você ouve a crônica
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Uma vez, fui fazer uma palestra e, logo no início, falei que simpatizo com o Maluf e com o PT: o primeiro porque rouba, mas faz, e o segundo porque é corrupto, mas não privatiza.

Depois da enxurrada de vaias, cri que seria esta a minha única decepção. Encerrei o discurso, após cerca de duas horas falando ao público, e fui almoçar num restaurante da mesma rua.

Sentei-me à mesa aliviado com a santa paz. Precisava desfrutar do deleite de um prato que me aprazia pra compensar a sensação de solitude neste planeta de pessoas às quais não apetece entender o universo além da circunferência rasa de um pires.

Um filé à parmegiana nadando no molho suculento não chegava nem próximo da satisfação pessoal de supor-me compreendido, contudo eu não estava em condições de exigir mais que isso... pelo menos na meia hora que viria a transcorrer.

Enquanto levava o talher à boca, minha brincadeira de fingir que o garçom era a minha babá foi interrompida de forma brusca por uma porrada na nuca que fez o garfo espetar o meio do meu nariz.Clicando aqui, você lê o texto completo
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Aquele japonesinho era muito esquisito... não... na verdade, não era. Eu que era. E sofria bastante bullying por causa disso. Preconceito todos nós temos, mas, quando somos as vítimas, logo levantamos a bandeira do contra. Eu, que vivia isolado, no meu cantinho imaginário pueril, quando olhava para os lados e via o mundo que existia, na realidade, interagia um pouco, nem sempre de uma maneira que se possa ter orgulho.

O ano era 1983. Mini Mingau Ácido na pré-escola. Durante a aula de educação física, fizemos fila para virar cambalhota, no colchonete, conforme mandara a tia Célia. A criaturinha de zoinho puxado, bem na minha frente, olhava-me de rabo de olho, com cara de poucos amigos, que ambos não tínhamos. Ele não estava gostando nada nada nada das chacotas do Mingauzinho.

– Abre o olho, japonês! Vai errar o colchão, na hora de virar cambalhota.

– Eu sou mestiço!

– É japonês. Ahahaha...Clicando aqui, você lê o texto completo
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No dia seguinte, eu estava sentado no banco da praça do bairro, conversando com os meus brothers, quando vejo, à meia luz, a insigne de Bartira surgindo no horizonte. Ela havia passado um cintilante batom cor-de-rosa na boca. Eca! Pintou algumas luzes naquele cabelinho pixaim, vestiu uma mini-saia vermelha que a dona Hermengarda deve ter conseguido na feira, através de alguma permuta por quiabos ou repolhos, e fez a desgentiliza de calçar um salto alto roxo, tão alto que fazia a Bartira chegar a quase um metro e cinquenta e cinco de altura. Ai, ai, ai! Que constrangimento...

– Oi, Mingau! Como é bom encontrar você por aqui!

– Fala, Bartira... – Eu disse, bem secamente.

– Mingau, você não disse que gostava de mim?

– Não, Bartira, eu somente perguntei se você não percebeu isso ainda, ou seja, no caso, se você não se tocou que não, que eu não gosto de você.

Fica aqui um conselho pras mulheres: façam um curso de interpretação de textos, se não, as senhoritas serão enganadas e iludidas.Clicando aqui, você assiste ao vídeo com animação gráfica